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5 Minutos no Chão da Sala
O cão cai tremendo no tapete: o tutor liga o cronômetro, filma e afasta a mesa, com a mão longe da boca.
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Border collie em crise, celular filmando
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Terça à noite, e Thor, um border collie de quatro anos, dormia encostado no sofá quando as patas começaram a pedalar no ar. Em segundos o corpo endureceu, a cabeça tombou para trás e a baba escorreu pelo canto da boca até o tapete.
A tutora, Carla, levantou num pulo e fez o gesto que quase todo mundo faz: ajoelhou e foi com a mão em direção à boca dele, com medo de que ele engolisse a língua. O marido segurou o braço dela antes. Tinha lido, meses antes, que cão nenhum engole a língua e que a mordida de uma crise fecha com força total, sem que o animal saiba de quem é o dedo.
Ela trocou o gesto. Pegou o celular, abriu o cronômetro e depois a câmera. O marido empurrou a mesa de centro para longe e tirou o abajur da tomada. Os dois apagaram a luz forte e desligaram a televisão.
A crise durou dois minutos e dez segundos. Thor ficou mais uns vinte minutos cambaleando, batendo no batente da porta e bebendo água sem parar. Não reconheceu a própria cama no começo. Depois deitou e dormiu.
Na clínica, na manhã seguinte, o vídeo fez o trabalho que a descrição aflita não faria. A neurologista viu a crise inteira, contou os movimentos, reparou em qual lado do corpo começou. Pediu exames de sangue e marcou retorno. O cronômetro também contou: abaixo de cinco minutos e sem uma segunda crise nas horas seguintes, o casal podia esperar amanhecer.
A convulsão (descarga elétrica desordenada no cérebro que sacode o corpo) assusta porque ninguém em volta sabe o que fazer com as mãos. As mãos têm três tarefas: segurar o celular, afastar os móveis e ficar longe da boca.
O que entra na boca do cão durante e depois da crise, e o que fica no armário, abre a edição.
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I Pode Dar?
Mão longe da boca, remédio só com receita
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Durante a crise, nada entra na boca do cão: nem mão, nem colher, nem água, nem comprimido. O que pode entrar é o remédio de resgate que a veterinária receitou antes, na dose e na via que ela escreveu.
A crença de que o cão engole a língua atravessou gerações e está errada. A língua é presa ao assoalho da boca por um músculo e uma prega de tecido, e não desce pela garganta. O risco real mora nos dentes: a mandíbula trava e abre sozinha, e o dedo de quem tenta ajudar vira o primeiro alvo.
Água e comida também ficam fora enquanto o corpo treme. O cão não controla a deglutição (o ato de engolir) naquele momento, e o líquido pode descer para o pulmão.
O ARMÁRIO DA FAMÍLIA
O diazepam (um calmante da família dos benzodiazepínicos) da gaveta de casa tem parente no uso veterinário, e por esse motivo o tutor fica tentado. A dose de gente não serve para o cão, o comprimido não desce durante a crise e a via oral demora a agir. Quando a veterinária julga necessário, ela receita a versão de resgate: diazepam por via retal ou midazolam no nariz, com a quantidade escrita para o peso daquele animal.
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Remédio de resgate só existe se foi receitado antes da crise, com dose por peso e via definida pela veterinária. Sem receita, o único resgate é o carro a caminho da clínica.
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Óleo, açúcar na gengiva e compressa de álcool também ficam de fora. Açúcar só entra por orientação da veterinária em cão diabético com glicose baixa comprovada, e mesmo assim depois que a crise passa.
O QUE AS MÃOS FAZEM
Afaste mesa, cadeira e abajur. Coloque uma almofada perto da cabeça sem prendê-la. Tire outros animais e crianças do cômodo. Se o cão está perto de escada ou piscina, puxe-o pelo quadril para longe, nunca pela cabeça.
No pós-ictal (a fase de confusão logo depois da crise), ofereça água só quando ele ficar em pé com firmeza. Comida pequena, apenas quando voltar a responder pelo nome.
Guarde o remédio de uso contínuo, quando houver, na mesma prateleira, com a tabela de horários colada na porta do armário.
Fale baixo e com calma durante a crise. O cão provavelmente não ouve naquele instante, mas a voz tranquila segura o tutor, e o tutor tranquilo lê o cronômetro sem errar o minuto. Toque no corpo só para afastá-lo do perigo, e sempre longe da cabeça.
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II Sinal do Corpo
Patas pedalando, relógio correndo
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Crise que passa de cinco minutos ou duas crises em 24 horas pedem saída imediata para o pronto-atendimento, sem esperar a próxima. O limite dos cinco minutos aparece no consenso da International Veterinary Epilepsy Task Force (grupo internacional de neurologistas veterinários), publicado na BMC Veterinary Research em 2015.
O mesmo documento chama de estado de mal epiléptico (crise que não para sozinha, ou crises emendadas sem o cão acordar entre elas) o quadro que queima o cérebro e aquece o corpo a cada minuto. Duas ou mais crises em 24 horas recebem o nome de crises em cluster (em grupo), e também pedem clínica sem espera.
ANTES, DURANTE, DEPOIS
Muitos cães avisam. Na fase chamada de pródromo ou aura (o período de minutos ou horas antes da crise), o cão fica grudado no tutor, esconde-se, lambe o ar ou olha fixo para a parede.
A fase ictal (a crise propriamente dita) tem duas caras. Na generalizada, o cão cai de lado, endurece, pedala, baba e pode soltar urina e fezes. Na focal, o tremor fica num ponto só: a boca mastiga o vazio, uma pata treme, a cabeça gira para um lado. O cão pode continuar em pé e parecer só "estranho".
A fase pós-ictal varia de minutos a horas. Cegueira passageira, andar em círculo, fome exagerada, sede e medo do próprio tutor aparecem e somem.
O VÍDEO E O CADERNO
Filme a crise desde o primeiro segundo que conseguir, com o cão inteiro no quadro. Diga em voz alta a hora de início. Pare o cronômetro quando o corpo relaxar, e anote o tempo que ele levou para voltar a andar.
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Crise acima de cinco minutos, segunda crise em 24 horas, cão que não acorda entre uma crise e outra ou corpo quente ao toque: carro já, telefonando para a clínica no caminho.
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A temperatura sobe durante a crise longa pelo esforço dos músculos. No caminho, deixe a janela aberta e o ar-condicionado ligado, sem cobrir o cão com cobertor.
Nem toda crise tem causa descoberta. Na epilepsia idiopática (sem causa encontrada nos exames), a veterinária chega ao diagnóstico descartando as outras hipóteses, e o cão pode viver bem com remédio diário. Nos casos em que o exame de sangue ou a ressonância aponta causa, o tratamento mira nela.
Leve à consulta o vídeo, o caderno com os horários e a lista de tudo o que o cão pode ter comido nas doze horas anteriores. A neurologista cruza esses três dados antes de pedir o primeiro exame.
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