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Joana Ribeiro fez o cadastro da Mel, uma vira-lata de 14 quilos, numa segunda-feira de janeiro, pelo site da prefeitura. Preencheu CPF, endereço, foto do comprovante de luz e a idade da cadela. No fim da tela apareceu uma senha e a frase que ela leu três vezes: aguarde contato.
O contato veio em setembro. Oito meses de espera por uma cirurgia que dura menos de uma hora.
Nesse intervalo a Mel entrou no cio duas vezes. Na primeira, Joana passou três semanas fechando portão, cobrindo o sofá com lençol velho e levando a cadela na coleira curta até a esquina, com dois machos do bairro seguindo atrás. Na segunda, desistiu de esperar e ligou para três clínicas particulares.
Os orçamentos vieram diferentes entre si e diferentes do que ela imaginava. Uma cobrava por faixa de peso. Outra somava exames de sangue e roupa cirúrgica à parte. A terceira perguntou antes de tudo: macho ou fêmea? Quando ouviu fêmea, o preço subiu.
Joana fez a conta no papel. De um lado, o valor da clínica, dividido em três vezes no cartão. Do outro, mais alguns meses de fila, mais um cio, o risco de uma ninhada e a ração de filhotes que ela não queria criar.
Ela escolheu esperar. A ligação da prefeitura chegou antes do terceiro cio, e a Mel operou num castramóvel (unidade móvel de cirurgia estacionada num bairro) com mais onze cães na mesma manhã.
A escolha dela serve de exemplo, mas não de regra. Tem tutor que não pode esperar, porque a cadela escapa no cio ou porque o macho marca a casa inteira com urina. Tem tutor que não passa no critério do programa, e descobre só depois de meses de senha parada.
A decisão depende de três perguntas em ordem: o cão pode entrar no programa, o corpo dele aguenta a espera e quanto custa não esperar. A primeira resposta mora no cadastro, e o cadastro tem mais exigência do que a tela de inscrição mostra.
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I Pode Dar?
Cadastro, idade e vacina em dia
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Nem todo cão entra no programa gratuito, e quem descobre a recusa tarde perde meses de fila. Cada prefeitura escreve o próprio edital, mas as exigências se repetem de cidade em cidade.
A primeira é o endereço. O tutor precisa morar no município e provar com conta de luz, água ou contrato de aluguel no próprio nome. Comprovante no nome de outra pessoa costuma exigir declaração assinada.
A segunda é a renda. Muitos programas dão prioridade, ou vaga exclusiva, a quem está no CadÚnico (Cadastro Único do governo federal para famílias de baixa renda). Quem não está no cadastro pode entrar numa lista separada, mais lenta, ou simplesmente não entrar.
A terceira é o limite de animais. Há cidades que aceitam dois ou três por CPF a cada ano. Protetor independente e ONG costumam ter cota própria, com outro formulário.
O QUE O CÃO PRECISA TER
Idade mínima e máxima aparecem em quase todo edital. Filhote muito novo espera crescer, e cão idoso pode ser recusado ou encaminhado para exame antes, porque a anestesia pesa mais num coração velho.
A vacina antirrábica em dia é pedida em boa parte dos programas, com a carteirinha na mão no dia da cirurgia. Alguns pedem também a vacina múltipla (a V8 ou V10, que protege contra cinomose, parvovirose e outras doenças).
Fêmea no cio ou prenhe costuma voltar para casa sem operar. O útero no cio fica mais irrigado e sangra mais, e a equipe do mutirão prefere remarcar.
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Antes de gerar a senha, leia o edital inteiro da sua cidade: endereço, renda, idade, vacina e limite por CPF. Faltou um item, a senha fica parada sem aviso.
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O DIA DA CIRURGIA
O jejum de comida vem na mensagem de confirmação, em geral de oito a doze horas, e a água sai do pote algumas horas antes. Cão que comeu pode vomitar durante a anestesia e aspirar o conteúdo para o pulmão.
Leve o cão na coleira ou na caixa de transporte, com um cobertor para a volta. Em muitos mutirões o tutor assina um termo de responsabilidade e espera do lado de fora.
Pergunte na saída quem atende em caso de complicação. Parte dos programas mantém um telefone de retorno; outros encaminham para o hospital veterinário público da cidade, quando existe.
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II Sinal do Corpo
O cio que chega antes da vaga
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A fila da prefeitura não para o relógio do corpo, e é o corpo do cão que decide quanto tempo dá para esperar. Na fêmea, o calendário é o cio. No macho, é o comportamento.
A cadela costuma entrar no cio duas vezes por ano, com sangramento pela vulva, vulva inchada e visitas insistentes de machos no portão. Cada cio sem castração abre a chance de uma ninhada.
O risco não termina na ninhada. A piometra (infecção do útero cheio de pus) aparece mais em fêmeas inteiras e mais velhas, e vira cirurgia de urgência, sem fila e sem preço de mutirão.
SINAIS QUE NÃO ESPERAM
Cadela inteira com corrimento amarelado ou com cheiro forte, barriga inchada, sede exagerada e apatia algumas semanas depois do cio precisa de consulta no mesmo turno. A piometra pode estar fechada, sem corrimento nenhum, e aí o único aviso é o cão prostrado.
Nódulo nas mamas também pede avaliação rápida. A castração antes dos primeiros cios reduz o risco de tumor de mama, e cada cio a mais tira parte dessa proteção, segundo a revisão de Schneider, Dorn e Taylor publicada no Journal of the National Cancer Institute em 1969.
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Corrimento com pus, barriga inchada ou cadela prostrada depois do cio: clínica hoje, com ou sem senha na prefeitura.
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O MACHO NA ESPERA
No macho inteiro os sinais são outros. Marcar território com urina dentro de casa, fugir atrás de fêmea no cio e brigar com outro macho costumam aparecer depois da puberdade.
A castração tende a reduzir a marcação e a fuga, mas não apaga comportamento que virou hábito. Quanto mais tempo o hábito tem, mais treino ele pede depois da cirurgia.
Testículo que não desceu para a bolsa, o criptorquidismo (testículo retido na barriga ou na virilha), muda a conta inteira. A cirurgia fica mais longa, o risco de tumor no testículo retido sobe e muitos mutirões não fazem esse caso.
DEPOIS DO CORTE
A recuperação leva em torno de dez dias até a retirada dos pontos. O cão usa roupa cirúrgica ou colar elizabetano (o cone em volta do pescoço) para não lamber a ferida.
Olhe o corte duas vezes por dia. Vermelhidão que aumenta, secreção, ponto aberto ou cão que não come depois de um dia inteiro pedem retorno.
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