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A Caderneta Amarelada na Gaveta da Cozinha
Múltipla e antirrábica marcam o ano do cão adulto, e a conta cheia só aparece quando vermífugo, antipulga e consulta entram na mesma folha.
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Caderneta de vacinação aberta na mesa da cozinha
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Sábado de manhã, a caderneta de vacinação amarelada no fundo da gaveta da cozinha, embaixo do manual do micro-ondas e de duas contas de luz já pagas. A última etiqueta colada traz carimbo de clínica, letra apertada de veterinário e um ano que ficou para trás. Na sala, o cão de sete quilos dorme esparramado no tapete, sem tosse, sem coceira, sem um único sintoma que justifique pressa.
A dúvida da casa entra sempre pela mesma porta. O cão adulto, que tomou o protocolo inteiro quando filhote, precisa mesmo repetir agulha todo ano? E, se precisa, quanto pesa repetir.
Quem responde na mesa do almoço costuma ser o vizinho ou o grupo de WhatsApp do condomínio. Cada fonte entrega um pedaço: uma fala da raiva, outra fala da múltipla, uma terceira jura que depois dos sete anos não precisa mais nada. A caderneta, que seria a memória oficial do animal, fica com lacuna de dois anos e uma etiqueta descolada.
O ano do cão adulto tem duas agulhas previstas, e as duas obedecem a lógicas diferentes. A polivalente, chamada de múltipla na recepção da clínica e vendida como V8 ou V10 conforme o número de frações que carrega, protege contra um pacote de doenças com durações de imunidade bem desiguais. A antirrábica anda sozinha, com calendário próprio e peso legal que as outras não têm.
Em volta das duas, o ano acumula linhas que ninguém soma junto: a consulta anual, o vermífugo, a dose mensal de antipulga, o exame de sangue pedido quando o animal passa dos oito anos. Cada gasto sai do bolso numa semana diferente, cabe no orçamento sem doer e desaparece da memória antes do seguinte. O tutor raramente vê o ano inteiro fechado numa folha só, e por não ver, decide no susto.
Começa pela pergunta que a recepção ouve mais e responde menos: o que o cão adulto realmente toma, com que intervalo, e o que entrou no frasco só porque o laboratório juntou tudo numa dose.
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I Pode Dar?
Duas agulhas por ano, e nem sempre as duas
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As diretrizes de vacinação de cães e gatos da WSAVA, a Associação Mundial Veterinária de Pequenos Animais, separam as vacinas em essenciais, as que todo cão do planeta deve receber, e opcionais, indicadas conforme o modo de vida do animal. A separação muda o calendário da casa mais do que qualquer conselho de balcão, porque as duas listas têm ritmos distintos.
No grupo das essenciais estão cinomose, parvovirose e a hepatite infecciosa canina, causada pelo adenovírus canino. Para essas três, o documento da WSAVA recomenda o reforço de um ano depois do protocolo de filhote e, dali em diante, intervalos de três anos ou mais, porque a memória imunológica contra vírus desse tipo dura muito além de doze meses.
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"Cães que respondem às vacinas essenciais mantêm imunidade protetora por muitos anos na ausência de qualquer nova vacinação, e revacinações não devem ser aplicadas em intervalo menor do que três anos."
Michael J. Day, Guidelines for the Vaccination of Dogs and Cats, Journal of Small Animal Practice, 2016
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Se as essenciais duram anos, por que a clínica chama o cão adulto todo setembro? A resposta está nas frações que viajam junto no mesmo frasco. A V8 e a V10 carregam, além das três essenciais, cepas de leptospirose, uma bactéria eliminada na urina de rato e transmitida em água parada e enchente. A proteção contra ela é curta e some antes de completar um ano, e em região de alagamento o veterinário chega a fracionar em duas aplicações por ano.
O reforço anual da múltipla acontece, portanto, para sustentar a fração bacteriana. As frações virais viajam de carona e são revacinadas com frequência maior que a necessidade biológica delas. Existe caminho para quem quer precisão: a sorologia, exame de sangue que mede anticorpos contra cinomose e parvovirose e mostra em número se o reforço é dispensável naquele ano. O exame custa mais que a própria dose na maioria das clínicas, o que explica o protocolo anual seguir como padrão prático.
A antirrábica segue trilha separada. No Brasil, a raiva é zoonose de notificação obrigatória e o Ministério da Saúde mantém campanha nacional de vacinação animal com dose gratuita em postos e em unidades móveis. A bula dos imunobiológicos usados aqui prevê reforço a cada doze meses, e muitos serviços de hospedagem, creche canina e viagem interestadual exigem o comprovante dentro da validade anual.
Quem toma o quê, e com que intervalo
Cinomose, parvovirose e adenovírus: reforço aos doze meses de vida e, depois, a cada três anos, segundo a WSAVA. Na prática brasileira, viajam dentro da múltipla anual.
Leptospirose: anual, e semestral em área de enchente, córrego ou rato. É a fração que puxa a múltipla para o calendário de doze meses.
Raiva: anual pela bula dos produtos em uso no país, com dose gratuita nas campanhas do Ministério da Saúde.
Tosse dos canis, causada pela bactéria Bordetella bronchiseptica, e giárdia: opcionais, indicadas para cão que frequenta creche, hotel, pet shop de banho semanal ou parque cheio.
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II Sinal do Corpo
O dia seguinte à agulha, hora por hora
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A vacina funciona provocando uma resposta do organismo, e resposta aparece no corpo: o cão vacinado hoje tem permissão biológica para amanhecer molenga amanhã. Sonolência maior, apetite reduzido numa refeição e vontade curta de caminhada cabem dentro do esperado nas primeiras 24 a 48 horas. Passado o segundo dia, o animal volta ao normal sozinho.
O caroço no local da aplicação assusta a casa sem motivo. Um nódulo firme, do tamanho de uma ervilha, indolor ao toque, costuma persistir por até três semanas e sumir sem tratamento. Massagear com força, aquecer ou espremer só aumenta a inflamação local.
A reação que exige pressa tem outro relógio. A anafilaxia, reação alérgica grave e generalizada, se instala entre quinze e sessenta minutos depois da agulha. Os sinais: inchaço súbito do focinho e das pálpebras, placas vermelhas elevadas pela barriga, vômito, salivação intensa, dificuldade para respirar, gengiva pálida e fraqueza que derruba o animal.
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Vinte minutos sentado na recepção depois da aplicação resolvem a maior parte do que pode dar errado, porque a reação grave acontece com a clínica ainda aberta e o veterinário a três passos.
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Cães de raças miniatura acumulam mais registros de reação adversa, em parte porque recebem o mesmo volume de frasco distribuído num corpo de poucos quilos. Para eles, vale conversar sobre espaçar múltipla e antirrábica em semanas diferentes, no lugar de empilhar as duas numa consulta só.
O que se faz antes e depois da agulha
Vermifugue o cão de sete a dez dias antes da vacina. Animal com carga alta de verme responde pior à vacinação, e o veterinário costuma adiar a dose nesse caso.
Não vacine cão com febre, diarreia, tosse ou em tratamento com corticoide em dose alta. A vacina pede um organismo com o sistema de defesa livre para trabalhar.
Anote na caderneta o nome comercial do produto, o número do lote e a data. Se aparecer reação, o lote identificado orienta a conduta da próxima dose e permite a notificação ao fabricante.
Deixe o animal em repouso no dia da aplicação. Banho, tosa, corrida no parque e treino pesado ficam para 48 horas depois.
Observe por uma hora com o celular na mão. Foto do inchaço, com horário, vale mais na emergência que a descrição de memória.
Uma pergunta que a casa faz e a literatura ainda não fecha: nenhum exame prevê qual cão vai reagir mal antes da primeira reação acontecer. Existe correlação com porte pequeno e com histórico de reação anterior, e não existe teste de rotina que aponte o animal de risco no dia da consulta. Por essa lacuna a espera de vinte minutos continua sendo a conduta sensata, e não uma formalidade da clínica.
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