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A Noz Que Derruba o Traseiro do Cão em 12 Horas

A macadâmia age em silêncio por uma noite inteira; o passo certo é ligar pra clínica com o cão ainda andando.

Dachshund marrom deitado no tapete da sala, perto de um pote de nozes sortidas na mesa de centro.

Dachshund e o pote de nozes da sala

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Juliana Prado deixou o pote de nozes sortidas na mesa de centro às dez da noite de um sábado, depois do filme. O pote tinha castanha-de-caju, amêndoa e macadâmia, comprado a granel no mercado da esquina. Quando ela voltou da cozinha, o Fubá, um dachshund de seis quilos e cinco anos, estava com o focinho enfiado nele.

Ela tirou o pote do chão, contou o que sobrou e fez a conta de cabeça: faltavam umas oito macadâmias, além de algumas castanhas. O Fubá abanava o rabo, inteiro, sem sinal de nada. Juliana pesquisou no celular, leu que noz engorda e foi dormir tranquila.

Às oito da manhã o cão não desceu da caminha. Quando ela chamou, ele levantou a frente do corpo e arrastou as patas de trás, como se o traseiro tivesse ficado pesado demais. As coxas tremiam em ondas curtas, e a barriga estava quente na palma da mão.

No caminho para a clínica de plantão, o Fubá vomitou duas vezes no banco do carro. O termômetro da veterinária marcou 40,1 °C, quando a temperatura de um cão adulto saudável fica entre 38 e 39,2 °C.

A veterinária perguntou primeiro sobre a madrugada: o que ele tinha comido? Juliana mostrou a foto do pote no celular, e a médica apontou para as nozes brancas e redondas, as macadâmias.

O Fubá passou o dia no soro e voltou a andar firme na manhã de segunda. O susto não deixou sequela, mas custou uma noite mal dormida, um dia de internação e uma conta que Juliana não esperava pagar naquele mês.

O erro dela teve duas partes. Achou que noz era só gordura e tratou o caso como problema de balança. E esperou o corpo do cão avisar, quando o aviso da macadâmia só chega horas depois da mordida, já com o traseiro mole.

Se ela tivesse ligado para a clínica na noite de sábado, com o Fubá ainda andando, a veterinária teria tido tempo de agir antes dos sintomas. O relógio da macadâmia corre contra quem espera.

Antes do relógio vem a lista: qual noz pode cair na tigela, qual nunca entra e por quê.

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I  Pode Dar?

A noz que fica fora da tigela

Macadâmia não entra na comida do cão em quantidade nenhuma, crua, torrada, salgada ou coberta de chocolate. Não existe dose conhecida como segura, e a reação muda de um cão para outro.

O alerta ganhou dono e data em 2000. Steven Hansen e colegas do Centro de Controle de Envenenamento Animal da ASPCA (a sociedade americana de prevenção da crueldade contra animais) publicaram na revista Veterinary and Human Toxicology a análise de 48 cães que tinham comido macadâmia.

O título do artigo resume o quadro em português: fraqueza, tremores e depressão associados a nozes macadâmia em cães. No trabalho de Hansen, os sinais apareceram em cães que comeram a partir de 2,2 gramas da noz por quilo de peso.

O mecanismo continua sem resposta. Ninguém isolou ainda a substância da macadâmia que faz mal ao cão, e o motivo de outras espécies tolerarem a noz também segue desconhecido. Sem saber o que atacar, a veterinária não tem antídoto (um remédio que neutraliza o veneno): o tratamento segura os sintomas até o corpo eliminar a noz.

O QUE PIORA A MACADÂMIA

A macadâmia coberta de chocolate soma dois problemas. O cacau traz teobromina (uma substância parecida com a cafeína, que o cão processa muito devagar), e ela acelera o coração e causa agitação junto com o tremor da noz.

Sal e gordura pesam na outra ponta. Um punhado de nozes torradas e salgadas é muita gordura de uma vez para um cão pequeno e pode disparar uma pancreatite (inflamação do pâncreas, a glândula que digere gordura), que dói e exige internação.

A casca é o terceiro risco. A macadâmia com casca é dura e redonda, e um cão que engole uma inteira pode ficar com ela presa no esôfago ou no intestino.

Se a lista de ingredientes traz macadâmia, o pacote inteiro fica fora do alcance do cão: mix de nozes, cookie, granola, barra de cereal e sorvete.

E AS OUTRAS NOZES

Amendoim torrado, sem sal e sem casca, aguenta um petisco raro, desde que o cão não tenha alergia. Pasta de amendoim só serve sem açúcar e sem xilitol (um adoçante que derruba a glicose do cão).

Castanha-de-caju sem sal não é tóxica, mas é gordurosa; uma ou duas em ocasião rara bastam. Amêndoa e castanha-do-pará não envenenam, porém são duras, grandes e difíceis de digerir.

Noz comum e noz-pecã velhas guardam outro perigo: o mofo. Fungos que crescem nelas produzem micotoxinas (venenos fabricados por fungos) que também causam tremor, às vezes mais forte que o da macadâmia.

Nenhuma noz faz falta na dieta de um cão alimentado com ração completa. No pote da Juliana havia três tipos, e só um tinha força para derrubar o Fubá; para o cão, a decisão mais simples é deixar o pote inteiro longe do focinho.

 
 

II  Sinal do Corpo

O traseiro que amolece de madrugada

O sinal da macadâmia chega tarde: na maioria dos cães, entre 12 e 24 horas depois da mordida, e começa pelas patas de trás. Daí o cão que comeu à noite costuma acordar mal, como aconteceu com o Fubá.

A ORDEM DOS SINAIS

A fraqueza nas patas traseiras vem primeiro. O cão anda cambaleando, com ataxia (a perda de coordenação dos movimentos), senta de repente ou não consegue subir no sofá onde sempre sobe.

Depois aparece o tremor, em ondas curtas nas coxas e no dorso. Junto vem a febre, que passa de 39,5 °C em muitos casos, além de vômito, apatia e dor quando o dono aperta as articulações.

O motivo de o traseiro sentir primeiro também não tem resposta. A veterinária consegue descrever o quadro e tratá-lo, mas a ciência ainda não sabe explicar por que a noz atinge os músculos das patas de trás antes dos outros.

Ligue para a clínica com o cão ainda andando. Esperar o tremor passar faz perder as horas em que a veterinária ainda consegue tirar a noz do estômago.

QUANDO A LIGAÇÃO FAZ DIFERENÇA

Nas primeiras duas horas, a noz costuma estar no estômago. A veterinária pode provocar o vômito com um remédio próprio e depois dar carvão ativado (um pó que segura o resto do veneno no intestino para ele sair nas fezes).

Depois desse prazo, a noz já passou adiante, e o atendimento vira soro na veia, controle da febre e repouso. O cão sai bem, mas sai mais tarde e mais caro.

Na clínica, o tremor e a febre podem lembrar outros envenenamentos, como chocolate, mofo e alguns remédios de gente. Por esse motivo o dono ajuda muito levando a foto do pacote ou o próprio pote: a veterinária trata melhor o que sabe nomear.

O QUE NÃO FAZER EM CASA

Água oxigenada, sal na boca e dedo na garganta para o cão vomitar ficam fora da lista sem orientação da clínica. Vômito provocado do jeito errado queima o esôfago ou leva comida para o pulmão.

Leite e azeite também não ajudam. O leite não neutraliza nada, e a gordura extra pesa no pâncreas que a noz já pressiona.

Com tratamento, a maioria dos cães volta a andar firme em um ou dois dias e não guarda sequela, como o Fubá. Tremor que piora, febre que não cede ou cão que deita e não levanta mais pedem retorno imediato à clínica.

 
 

III  A Conta do Pote

Oito nozes num cão de seis quilos

A conta do risco usa duas medidas que cabem num papel: o peso do cão e o peso da noz. Uma balança de cozinha resolve a segunda; a carteira de vacinação costuma trazer a primeira.

Uma macadâmia sem casca, posta na balança, fica entre 2 e 3 gramas. Para facilitar a conta, use 2,5 gramas por noz e ajuste se o pacote da sua casa tiver nozes maiores.

A CONTA DO FUBÁ

A menor quantidade descrita por Steven Hansen em 2000 foi de 2,2 gramas por quilo. Para os seis quilos do Fubá, a conta dá 13,2 gramas, ou pouco mais de 5 nozes.

O Fubá comeu oito, perto de 20 gramas. Dividido pelo peso, deu 3,3 gramas por quilo, acima da linha em que os cães do levantamento já mostraram sinais.

Em outros tamanhos, a conta muda bastante. Um yorkshire de 3 quilos chega à linha com 6,6 gramas, menos de 3 nozes. Um vira-lata de 10 quilos, com 22 gramas, cerca de 9. Um labrador de 30 quilos precisaria de umas 26 nozes.

Multiplique o peso do cão em quilos por 2,2: o resultado, em gramas, é a quantidade de macadâmia que já derrubou cães desse tamanho. Abaixo dela, ligue para a clínica do mesmo jeito.

A linha de Hansen marca o menor caso registrado, não um limite seguro. Um cão sensível pode passar mal com menos, e o labrador que come duas nozes também merece a ligação.

A CONTA DO PLANTÃO

Os preços abaixo são de exemplo, parecidos com os que Juliana pagou; troque pelos da sua cidade. Consulta de plantão no domingo, R$ 250. Exames de sangue, R$ 300. Um dia de internação com soro, R$ 600.

A conta da manhã de domingo fechou em R$ 1.150. Se Juliana tivesse ligado no sábado à noite, o atendimento provável seria consulta e vômito provocado, perto de R$ 400, sem internação.

Um pote de vidro com tampa de rosca custa R$ 30 e fica na prateleira alta. É o item mais barato da conta inteira.

Para deixar a casa pronta, siga estes passos:

1. Leia o rótulo de todo mix, cookie e granola que entra em casa e procure a palavra macadâmia.

 

2. Guarde as nozes em pote com tampa de rosca, acima da altura da mesa de centro.

 

3. Anote o peso do seu cão e faça a conta dele: peso vezes 2,2.

 

4. Salve no celular o número de uma clínica que atende 24 horas.

 

5. Se o cão comer, fotografe o pacote, conte o que sumiu e ligue na hora, mesmo com ele abanando o rabo.

 

6. Leve o pacote ou o pote para a clínica.

Hoje à noite, olhe a mesa de centro e a bolsa de quem chega em casa com a altura do focinho do seu cão em mente.

"Em que altura da sua casa fica o pote de nozes?"

 
 
 
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