|
|
O bocejo que não é sono
No banho, na visita e na bronca, o bocejo largo do cão costuma ser pedido de trégua, e o que você faz depois decide o resto.
|
Bocejo de orelha baixa no meio do banho
|
| ▼ |
| |
|
A campainha toca às oito da noite e a casa muda de estado. O cão levanta do tapete, vai até a porta, senta a um metro dela e, quando a visita entra falando alto, abre um bocejo largo, daqueles que esticam o focinho inteiro e terminam num barulhinho de língua. Alguém sempre comenta a mesma frase: olha, ele está com sono.
O relógio diz outra coisa. O cão dormiu boa parte da tarde, acordou há vinte minutos, jantou, e estava de olho aberto seguindo o barulho do elevador. Sono acumulado ele não tem. O bocejo veio no segundo exato em que a porta abriu.
Bocejo de cachorro tem dois endereços diferentes. Um deles é fisiológico, o mesmo seu, ligado ao cansaço e à passagem entre estar acordado e dormir. O outro é social: um gesto que o cão usa pra baixar a temperatura de uma cena que está apertando, dirigido a você, ao visitante ou ao outro cão. A boca faz o mesmo movimento, a função muda por completo.
Quem confunde os dois paga caro em situações banais. O tutor lê sono e continua com a mão no chuveirinho, continua o sermão, continua empurrando o cão pro colo do sobrinho pra tirar foto. O sinal foi emitido, ninguém respondeu, e o cão aprende que pedir trégua com educação não resolve nada. O pedido seguinte costuma ser mais barulhento, e às vezes vem com dente.
A parte boa é que o bocejo social quase nunca anda sozinho no corpo do cão. Ele chega escoltado por outros sinais pequenos, e é a escolta que entrega qual dos dois tipos você está vendo.
Comece pelos lugares onde o bocejo aparece com hora marcada, porque a cena costuma dizer mais do que a boca. São sempre os mesmos endereços dentro de casa, e depois que você aprende a reconhecer os três principais, o resto do corpo do cão fica fácil de ler.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I Pode Dar?
O bocejo no meio do banho
|
|
Banho, bronca e visita produzem o mesmo gesto no mesmo segundo, e quase nenhum tutor lê o gesto pelo que ele é. Veja onde o bocejo aparece com hora marcada dentro de casa.
No banho, o bocejo chega quase sempre antes do xampu. O cão entra no box, a água liga, e ali, com as patas escorregando no piso molhado, ele abre a boca devagar. Ainda não entrou água na orelha, ainda não doeu nada. O que apertou foi o conjunto: chão instável, barulho contínuo, saída bloqueada por um corpo humano agachado na frente dele.
Na bronca acontece o mesmo com outra causa. Você levanta a voz, se inclina por cima dele apontando o chinelo mastigado, e o bocejo sai bem no meio da frase. A leitura comum é deboche, o famoso "está me ignorando". O cão está fazendo o oposto de ignorar: registrou cada centímetro da sua postura e devolveu o gesto mais neutro que tem no repertório.
A visita produz a versão mais confusa de todas, porque a casa está alegre. Todo mundo falando junto, mão estendida por cima da cabeça do cão, criança correndo pelo corredor, e o bocejo aparece entre uma carícia e outra. Alegria humana e pressão canina cabem na mesma sala sem se contradizer.
A lista de cenas se repete de casa em casa: sala de espera do veterinário, abraço apertado, celular colado no focinho pra foto, mala aberta no chão do quarto, corte de unha, criança pequena deitada em cima dele. Todas têm um denominador comum, o cão sem rota de saída e sem previsão de quando aquilo termina.
Faz sentido que o gesto escolhido seja o bocejo. É lento, é grande, é visível do outro lado da sala e não ameaça ninguém. Um cão que quer diminuir a tensão precisa de um movimento que o outro enxergue de longe e não confunda com desafio. Rosnar cumpre a mesma função e custa muito mais caro na convivência.
|
O bocejo largo no meio do banho é o gesto mais educado que o cão tem pra dizer que a cena ficou grande demais pra ele.
|
Existe ainda uma terceira porta, o contágio. O grupo de Atsushi Senju publicou em 2008, na revista Biology Letters, a observação de que cães bocejam ao ver uma pessoa bocejar na frente deles. Se você acabou de abrir a boca no sofá e o cão abriu logo depois, a explicação mais simples costuma ser a certa, e não tem tensão nenhuma na cena.
Por causa dessas três portas, a primeira pergunta útil nunca é sobre a boca. É sobre o relógio e sobre a cena: o que estava acontecendo nos dez segundos anteriores, quem estava perto, e o que o cão poderia ter feito pra sair dali se quisesse.
A cena responde metade da pergunta. A outra metade está no resto do corpo, e é onde a maioria dos tutores nunca olha.
|
|
|
|
|
II Sinal do Corpo
Orelha, lábio e o corpo travado
|
|
Bocejo de sono chega com o corpo mole e sem plateia. Bocejo de tensão chega com o corpo travado, no meio de alguém, e traz companhia: orelha pra trás, lambida no próprio focinho, olhar de canto.
|
A ORELHA. No cão relaxado a orelha fica na posição neutra da raça, solta, acompanhando o barulho da casa. No bocejo de tensão ela vai pra trás e cola no crânio, como se o cão quisesse diminuir o próprio tamanho. Em orelha caída de cocker ou beagle o movimento é sutil, dá pra ver pela base, que recua junto.
O LÁBIO. Logo depois do bocejo aparece a lambida rápida no próprio focinho, uma linguada que sobe e volta em menos de um segundo, sem comida por perto. Fora do contexto de comida, aquela lambida é o segundo sinal mais confiável da lista.
O OLHO. O cão tenso vira o rosto pro lado sem tirar o olho do que o incomoda, e o branco aparece num crescente na quina. O olhar direto some, e o que sobra é uma espiada de canto que os treinadores chamam de olho de baleia.
O CORPO. Repare no peso. Cão relaxado distribui o peso nas quatro patas ou se joga de lado no chão. Cão tenso joga o peso pra trás, trava o pescoço, deixa o rabo baixo e parado, e às vezes levanta uma pata dianteira do chão sem ir a lugar nenhum.
O RITMO também muda. O bocejo de cansaço é curto, chega em série no fim do dia e vem com espreguiçada. O bocejo de tensão é mais longo, mais lento, às vezes com um ganido fino no fim, e costuma vir repetido a cada poucos segundos enquanto a situação continua.
E existe a plateia. Sono acontece no lugar de dormir do cão, sozinho, sem ninguém olhando. Tensão acontece de frente pra alguém: você, a visita, o outro cachorro do parque, o tosador. O bocejo social é endereçado, e o endereço é a informação mais barata que você tem em mãos.
|
"Se o seu cão boceja quando você está brigando com ele, quando fotografa ou quando o abraça apertado, ele está tentando acalmar a situação."
Turid Rugaas, On Talking Terms With Dogs: Calming Signals, 1997
|
O bocejo também costuma chegar acompanhado de dois primos: a sacudida de corpo inteiro, aquela de cachorro molhado feita a seco, e a coceira repentina no meio de uma cena tensa. As duas aparecem quando a pressão baixa um pouco ou quando o cão precisa descarregar o corpo.
A regra prática de leitura é somar, nunca isolar. Um bocejo sozinho, num cão de corpo mole, no fim da noite, é sono. Um bocejo com orelha pra trás, lambida de focinho e peso pra trás, no meio de uma cena com gente em cima, é pedido de espaço, e três sinais juntos já fecham o quadro.
O que você faz nos segundos seguintes decide se o cão vai continuar avisando com educação ou vai parar de avisar.
|
|
|