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O Caco de Vidro na Pata do Bento

O corte na almofadinha sangra muito e fecha por fora antes de fechar por dentro; sangue que atravessa o pano manda pra clínica.

Border collie com a pata da frente erguida e enrolada num pano, numa calçada de praia.

A pata do Bento embrulhada na fralda

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Paula Siqueira voltava da praia da Armação, em Florianópolis, num domingo de manhã, quando o Bento parou na calçada e levantou a pata da frente. O border collie de três anos tinha pisado num caco de garrafa escondido na areia fina perto do quiosque.

Em segundos, a calçada ganhou pingos vermelhos. Paula se agachou e viu um talho reto na almofadinha maior, a do meio, do comprimento de uma unha de polegar. O sangue escorria entre os dedos do cão e manchava o pelo branco da pata.

O susto tinha motivo. A almofadinha (o coxim, a sola grossa e macia que o cão apoia no chão) é cheia de vasinhos de sangue e de gordura, feita pra amortecer o passo. Um corte pequeno ali sangra como um corte grande em qualquer outro lugar do corpo.

Paula tirou da bolsa a única peça limpa que tinha, uma fralda de pano do filho, dobrou em quatro e apertou contra a pata. Olhou o relógio do celular e decidiu esperar alguns minutos antes de chamar o carro.

O gesto dela resolve a primeira parte do problema. A segunda parte é menos visível: a pele grossa da almofadinha costuma colar por fora em poucos dias, enquanto o fundo do corte segue aberto, às vezes com areia ou uma lasca de vidro dentro.

Por fora, a pata parece curada. Por dentro, o corte pode inflamar, juntar pus e abrir outra vez na primeira caminhada longa. Daí vem a pressa em lavar bem e em decidir cedo se o corte pede ponto.

Paula tinha três perguntas na cabeça enquanto apertava a fralda: o que podia passar na pata, como saber se o sangue ia parar e quanto custaria se não parasse. A primeira resposta começa na torneira, com água limpa e nada além dela.

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I  Pode Dar?

Soro e pano limpo, sem pó de café

No corte da almofadinha, entra água limpa ou soro fisiológico, pano limpo e pressão; o resto fica no armário. Lavar tira a areia e o vidro miúdo que a pele grossa prenderia lá dentro.

Paula lavou a pata do Bento no chuveirão da praia por um bom tempo, com a água correndo de cima pra baixo, sem esfregar. Em casa, repetiu com soro fisiológico (água com sal na medida do corpo, vendida em farmácia) num frasco de apertar.

O QUE PODE ENTRAR NA PATA

Soro fisiológico e água corrente de torneira entram. Pano limpo, gaze ou fralda de pano entram por cima, dobrados em várias camadas, pra apertar sem deixar fiapo dentro do corte.

Gelo também pode entrar, embrulhado num pano e por poucos minutos, porque o frio aperta os vasinhos. Ele vem junto da pressão, nunca no lugar dela.

Antisséptico só se a clínica indicar, e diluído. A clorexidina (um antisséptico de uso veterinário comum) costuma ser receitada em solução fraca, e a veterinária passa a diluição pelo telefone.

Se aparecer um caco visível e solto na superfície, ele sai com cuidado. Se o caco estiver fincado fundo, fica onde está: puxar pode abrir um vaso maior, e a retirada vira tarefa da clínica.

Na pata cortada, entra água limpa, soro e pano dobrado; caco fincado fundo fica para o veterinário tirar.

O QUE FICA NO ARMÁRIO

Fica fora o pó de café, receita de avó que ainda circula pra estancar sangue. Ele não esteriliza, suja o corte e atrapalha o veterinário, que vai precisar ver as bordas limpas.

Fica fora a água oxigenada. Ela borbulha e parece limpar, mas fere o tecido vivo da borda e atrasa o fechamento. O álcool arde, machuca a mesma borda, e o cão reage puxando a pata da mão do tutor.

Fica fora a pomada do armário de casa. O cão lambe a pata assim que pode, e o que estiver passado vai parar na boca. A língua dele também não limpa: a lambida leva bactéria da boca pra dentro do corte.

Fica fora o algodão solto, que gruda fiapo no sangue e arranca a crosta quando sai. E fica fora o esparadrapo apertado direto em volta da pata, que pode prender a circulação dos dedos.

Bento ficou deitado no tapete do banheiro enquanto Paula enxaguava. Ela trocou a fralda suja por gaze nova e voltou a apertar, de olho no relógio.

 
 

II  Sinal do Corpo

O pano que fica vermelho por cima

O corte de almofadinha costuma parar de sangrar com pressão firme por cinco minutos; sangue que atravessa o pano nesse tempo é o sinal de corrida. O relógio importa porque a vontade de espiar é grande.

Cada vez que o tutor levanta o pano pra olhar, o coágulo que começava a se formar sai junto, e a contagem volta pro zero. Paula apertou a gaze com a palma da mão, sem soltar, e contou os cinco minutos inteiros no cronômetro.

O TESTE DO PANO

Se o sangue molhar o pano até aparecer na face de cima, não troque o pano. Coloque outro por cima, mantenha a pressão e vá pra clínica com a pata embrulhada, apertando no caminho.

Sangue que sai em jato, que pulsa no ritmo do coração, ou que volta a escorrer forte assim que a pressão para também pede corrida. Ele indica um vaso maior aberto, e esse vaso pede ponto ou cauterização (a queima controlada que fecha o vaso).

Cinco minutos de pressão sem espiar; sangue que atravessa o pano nesse tempo leva o cão pra clínica, com a pata apertada no caminho.

O CORTE QUE PARECE FECHADO

Parar de sangrar não encerra a avaliação. O corte que abre a almofadinha de lado a lado, que mostra a gordura amarelada por baixo ou que tem a borda solta como uma aba costuma precisar de ponto.

O ponto tem hora. Muitos veterinários preferem fechar o corte limpo nas primeiras horas, antes que a sujeira se instale. Corte que chega à clínica dias depois às vezes já não aceita sutura e precisa cicatrizar aberto, com curativo por semanas.

A pele da almofadinha é grossa e dura de propósito. Ela cola por cima rápido, e o fundo, que ficou com areia ou vidro, continua aberto por baixo. Dias depois, a pata incha, esquenta e solta pus pela linha que parecia fechada.

Na clínica, o corte costuma ser lavado e explorado sob sedação leve, pra achar a lasca miúda que a lanterna de casa não mostra. O cão quieto deixa o veterinário abrir as bordas sem dor.

O sangue do Bento atravessou a gaze antes dos cinco minutos. Paula pôs a segunda gaze por cima, chamou o carro e foi apertando a pata no banco de trás.

A veterinária achou uma lasca de vidro no fundo do corte, lavou tudo e deu três pontos. Bento saiu com a pata enfaixada até o meio da perna e um cone no pescoço.

 
 

III  A Conta do Pote

O kit de R$ 40 na gaveta da entrada

A conta do corte se divide em duas: o kit de casa, barato e pronto na porta, e a clínica, que fica mais cara quanto mais tarde o cão chega. Paula montou o kit ainda na semana do corte, numa caixa de sapato perto da guia.

A CONTA DA GAVETA

Valores de exemplo numa farmácia de Florianópolis, que mudam por cidade: frasco de soro fisiológico perto de R$ 8, pacote de gaze perto de R$ 10, atadura de crepe perto de R$ 6 e esparadrapo perto de R$ 8.

Uma meia velha de algodão, que veste a pata por cima da atadura e segura o curativo no passeio, completou a caixa. A soma ficou perto de R$ 40, e a caixa mora na gaveta da entrada, ao alcance da mão.

A CONTA DA CLÍNICA

A conta do Bento, também em valores de exemplo de uma clínica de Florianópolis: consulta de emergência perto de R$ 250, sedação leve perto de R$ 200 e limpeza com três pontos perto de R$ 300.

Vieram ainda as trocas de curativo, perto de R$ 60 cada uma, e o cone (o colar que impede o cão de alcançar a pata com a boca), perto de R$ 50.

Corte atendido tarde costuma custar mais: sem ponto, ele cicatriza aberto, pede curativo por mais tempo e às vezes antibiótico, porque a infecção já começou.

O PASSEIO COM PONTO

Os pontos da almofadinha costumam sair entre dez e catorze dias, a critério do veterinário. Até lá, o curativo fica seco: em dia de chuva, um saco plástico vai por cima no passeio e sai assim que o cão entra.

Paula trocou a calçada da praia pelo gramado da praça nas semanas seguintes e passou a olhar o chão perto dos quiosques antes de soltar a guia.

Para agir quando o cão cortar a almofadinha, siga estes passos:

1. Lave a pata com água corrente ou soro, sem esfregar.

 

2. Aperte com pano limpo dobrado por cinco minutos.

 

3. Não levante o pano pra olhar antes do tempo.

 

4. Sangue atravessou o pano: outro por cima e clínica.

 

5. Corte fundo ou com borda solta: clínica no mesmo dia.

 

6. Deixe soro, gaze e atadura na gaveta da entrada.

Duas semanas depois, a veterinária tirou os pontos do Bento. A almofadinha fechou por dentro e por fora, e a caixa de sapato segue na gaveta, ao lado da guia.

“Onde está o pano limpo da sua casa quando o cão volta do passeio?”

 
 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, depois de quantos minutos de pressão firme o sangue que atravessa o pano vira sinal de ida à clínica?

ATrês minutos
BCinco minutos
CDez minutos
DQuinze minutos

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