In partnership with

Diário do Cão   Diário do Cão
ED 010

O Carrapato Preso na Dobra da Orelha

A boca do parasita fica cravada na pele, e quem decide o desfecho é a pinça reta com tração constante, nunca o álcool nem a brasa do cigarro.

Orelha de cão virada contra a luz da lanterna, com um carrapato cinzento preso na dobra da pele.

Carrapato preso na dobra da orelha do cão

▼
 

Nove da noite, a lanterna do celular apontada para dentro da orelha do vira-lata que voltou do sítio, e um caroço escuro do tamanho de um grão de feijão colado na dobra de pele, logo acima da entrada do canal. O cão sacode a cabeça, coça com a pata traseira e reclama quando a mão chega perto. A casa inteira se debruça, e alguém já foi buscar o algodão com álcool na gaveta do banheiro.

O caroço tem patas. Visto de perto, com a orelha virada contra a luz, o corpo cinzento aparece inchado de sangue e a cabeça some dentro da pele. O que parece verruga na primeira olhada é um animal preso pela boca, alimentando há horas ou há dias, no ponto do corpo do cão que a pata alcança mal e a tosa nunca limpa direito.

A dobra da orelha reúne três vantagens para o parasita: pele fina, temperatura estável e pouquíssimo atrito. Quando o cão passa por capim alto, os carrapatos esperam na ponta da folha com as patas dianteiras abertas, agarram o pelo de passagem e sobem procurando exatamente esse tipo de recanto. Orelha, entre os dedos, virilha e a prega abaixo do rabo respondem pela maioria dos achados numa vistoria caseira honesta.

A pressa da casa é entender como fazer o bicho soltar sozinho. Toda a tradição oral do interior aponta para o mesmo caminho: encostar a brasa do cigarro, molhar de álcool, passar esmalte de unha, pingar querosene, sufocar com vaselina. Cada um desses truques ataca o carrapato de um jeito que o obriga a reagir dentro da pele do cão, e a reação dele é o que transforma um incômodo local em risco de doença transmitida.

A retirada certa tem ferramenta, ângulo e ritmo definidos, e começa por entender o que a boca do parasita está fazendo lá dentro.

Continue lendo ↓

 
 

I  Pode Dar?

A brasa e o álcool trabalham a favor do parasita

O carrapato-estrela, Amblyomma sculptum, o mais comum nas áreas de pasto e capim do Sudeste e do Centro-Oeste brasileiro, não se agarra com as patas: ele corta a pele com um par de estruturas serrilhadas e enfia no buraco um tubo de fixação chamado hipostômio (a peça bucal farpada), que funciona como arpão de duas vias. Em volta desse arpão, o parasita deposita uma secreção que endurece e vira uma espécie de cimento biológico. É por isso que a mão puxando o corpo com os dedos escorrega e o bicho continua no lugar.

Junto do cimento, a saliva entra o tempo todo na pele do cão. Ela carrega anestésico, que explica o cão não reclamar da picada, e substâncias que impedem o sangue de coagular e seguram a resposta imune local. Essa mesma saliva é o veículo dos agentes que causam doença. O parasita não injeta o micro-organismo pelo corpo nem pelas patas: ele injeta pela boca, junto com o cuspe.

Aqui mora o estrago dos truques caseiros. Álcool, éter, querosene, esmalte e a brasa do cigarro provocam no carrapato uma reação de estresse imediata. Ele regurgita o conteúdo do intestino de volta na ferida, aumenta o volume de saliva injetada e, quando o corpo é esmagado ou queimado, rompe na própria ferida. O conteúdo intestinal do parasita é justamente onde vivem as bactérias que adoecem o cão. O truque que promete fazer o bicho soltar é o truque que empurra a carga infecciosa para dentro.

Esmalte e vaselina funcionam por asfixia lenta, e a lentidão é o problema. O carrapato respira por orifícios laterais e aguenta horas sem ar, horas que ele passa salivando na ferida enquanto morre. Quando finalmente solta, o tempo de exposição do cão ao que estava dentro dele já dobrou.

O que não entra na orelha do cão

Brasa de cigarro, fósforo aceso e qualquer fonte de calor. Além de estressar o parasita, queimam a pele fina da orelha de um cão que sacode a cabeça.

Álcool, éter, acetona, querosene, gasolina e óleo diesel. Todos irritam o carrapato antes de matá-lo e ainda queimam a pele já inflamada em volta da picada.

Esmalte de unha, vaselina, manteiga e creme dental. Prometem sufocar, entregam mais tempo de saliva na ferida e sujam a região onde a pinça vai trabalhar.

"A transmissão de Rickettsia rickettsii por carrapatos do gênero Amblyomma normalmente requer várias horas de fixação no hospedeiro, período associado à reativação da bactéria dentro do parasita."

Marcelo B. Labruna, Ecology of Rickettsia in South America, Annals of the New York Academy of Sciences, 2009

Puxar com os dedos, torcer ou girar o corpo entra na mesma lista de proibições. Dedo não segura perto da pele, a unha esmaga o abdome do carrapato e a torção quebra as peças bucais exatamente onde elas estão ancoradas. Retirada boa é aquela em que o bicho sai inteiro, com a cabeça junto do corpo.

 
 

II  Sinal do Corpo

Duas semanas depois da picada o cão amanhece quieto

O carrapato retirado hoje não encerra a história: o intervalo entre a picada e o primeiro sinal de doença transmitida costuma correr de uma a três semanas, e a família já esqueceu do episódio quando o cão começa a se comportar diferente. O sinal de abertura quase nunca é dramático. O animal come menos, deita cedo, recusa a caminhada que adorava e passa o dia inteiro numa quietude que não combina com ele.

Febre é o segundo sinal e o mais mensurável em casa. A temperatura retal do cão saudável fica entre 38 e 39,2 graus, e qualquer termômetro digital comum de farmácia serve para ler. Focinho quente não mede nada e já mandou muita família para casa tranquila com um cão febril no colo.

Da febre em diante, cada doença desenha um quadro próprio. Na erliquiose, transmitida pelo carrapato-marrom-do-cão, aparecem sangramento de nariz, pontinhos vermelhos na pele da barriga, gengiva pálida e hematomas sem pancada, porque a bactéria derruba as plaquetas. Na babesiose, o parasita destrói glóbulos vermelhos e o cão fica com a gengiva branca, urina cor de coca-cola e uma fraqueza que atrapalha subir escada. Na febre maculosa brasileira, transmitida pelo carrapato-estrela, o cão apresenta febre alta, apatia profunda, olhos avermelhados e, em parte dos casos, sinais neurológicos.

Cão que voltou do sítio há duas semanas e amanheceu sem vontade de nada merece termômetro, não um dia de observação.

O que a casa observa e anota

Meça a temperatura retal com termômetro digital lubrificado com vaselina, uma vez de manhã e uma à noite, e anote os dois valores com o horário. Curva de febre escrita no papel vale mais na consulta que a impressão de que o cão estava quentinho.

Levante o beiço e olhe a gengiva sob luz branca. Rosa é o normal. Branca, amarelada ou com pontinhos vermelhos do tamanho de cabeça de alfinete pede consulta imediata, sem esperar a febre confirmar.

Registre a data da vistoria e de onde o carrapato saiu. Sítio, praça, trilha, quintal de parente com pasto ao lado: o lugar orienta a suspeita, porque o carrapato-marrom vive em canil urbano e o carrapato-estrela ocupa área de capim com cavalo ou capivara por perto.

Guarde o parasita retirado num potinho fechado com álcool e uma etiqueta com a data. Se o cão adoecer duas semanas depois, a espécie identificada no laboratório encurta o caminho do diagnóstico.

Vale dizer com todas as letras o que não se sabe pela simples picada: nenhum exame feito no dia da retirada prevê se aquele cão vai adoecer, porque a resposta do organismo demora a aparecer no sangue. A conduta de quem cuida é vigiar por três semanas com termômetro na mão, sem antibiótico preventivo por conta própria.

 

Quem banca a edição de hoje

Tackle your credit card debt by paying 0% interest until nearly 2028

If you have outstanding credit card debt, getting a new 0% intro APR credit card could help ease the pressure while you pay down your balances. Our credit card experts identified top credit cards that are perfect for anyone looking to pay down debt and not add to it! Click through to see what all the hype is about.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  A Conta do Pote

Pinça reta, tração constante e o potinho com álcool

A retirada correta cabe em cinco minutos e depende de três coisas simples: uma pinça de ponta reta e fina, luz boa e uma mão que puxa devagar sem afrouxar. Pinça de sobrancelha com ponta chanfrada serve; a de ponta curva escorrega. Existem também ganchinhos plásticos próprios, vendidos em agropecuária, que encaixam na base do parasita e o levantam por alavanca.

O princípio manda pegar o carrapato o mais perto possível da pele do cão, jamais pelo abdome inchado. Apertar a barriga cheia de sangue espreme o conteúdo intestinal de volta na ferida, que é exatamente o efeito que a brasa e o álcool produzem por outro caminho.

1. Peça ajuda para segurar. Uma pessoa imobiliza o cão sentado, com a cabeça firme e a orelha virada para fora, e a outra trabalha. Cão sozinho e sacudindo transforma a pinça num risco para o canal auditivo.

 

2. Calce luva descartável. Rickettsia e Ehrlichia também atingem gente, e a mão com corte pequeno no dedo entra em contato direto com o conteúdo do parasita rompido.

 

3. Encaixe a pinça entre o corpo do carrapato e a pele, rente à superfície, fechando sobre as peças bucais e não sobre o abdome.

 

4. Puxe numa linha só, perpendicular à pele, com força constante e crescente. Sem torcer, sem girar, sem solavanco. O cimento cede depois de alguns segundos de tração firme e o bicho sai inteiro.

 

5. Confira a cabeça. O carrapato retirado inteiro tem oito patas e uma ponta escura na frente do corpo. Se restar um pontinho preto cravado na pele, deixe a região limpa e seca e acompanhe: a pele costuma expulsar o fragmento em poucos dias, e cavar com agulha cria uma ferida infectada bem pior.

 

6. Guarde e limpe. O carrapato vai para o potinho com álcool, com data escrita. O local da picada leva água e sabão neutro ou clorexidina diluída, e nunca álcool puro em pele inflamada.

Um carrapato visível na orelha significa que existem outros no cão e muitos mais no ambiente. Cada fêmea ingurgitada que cai no chão do canil põe milhares de ovos, e as larvas voltam a subir no primeiro animal que passar. Tratar somente o que a pinça alcançou deixa a casa reinfestada em poucas semanas.

Por isso a vistoria vira rotina de dois minutos depois de qualquer saída para área de capim: passar a mão contra o pelo na orelha, no pescoço, entre os dedos, na virilha e sob o rabo, sentindo caroço. Junto dela entram o produto de controle prescrito pelo veterinário, na dose certa para o peso do animal, e a limpeza do quintal, com corte da grama e vedação das frestas de muro onde as fêmeas põem ovos.

A consulta fica reservada para três situações claras: carrapato dentro do canal auditivo, onde a pinça não deve entrar; cão com pele inflamada, pus ou parasitas demais para contar; e qualquer sinal de febre, apatia ou gengiva pálida nas três semanas seguintes à retirada.

"Onde exatamente estava o último carrapato que tirei do meu cão, e em que dia eu anotei?"

 
 
 
Guia Diário do Cão · Novo
Capa do guia Ração do Cão sem Pagar a Mais

Ração do Cão sem Pagar a Mais

As 8 conferências que mostram o custo por dia do pote e cortam o gasto sem baixar o patamar da ração.

Quero o guia →
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quanto tempo pode levar entre a picada do carrapato e o primeiro sinal da doença transmitida aparecer no cão?

A24 a 48 horas
B3 a 5 dias
C1 a 3 semanas
D2 a 3 meses

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🐕🐕🐕🐕🐕  ótima 🐕🐕🐕🐕  boa 🐕🐕🐕  ok 🐕🐕  ruim 🐕  péssima
 
Recomendação de Newsletter
Turno do Pai

Turno do Pai

Todo dia, 06:06. Um guia prático por fase do bebê: o que comprar, o que esperar e o que fazer quando o choro não para.

Quero receber →

 
Sua jornada
{{rank_nome | Aprendiz}} {{xp | 0}} de ouro
 

Faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra virar {{rank_prox | Aventureiro}}

Responda o quiz de hoje: +3 de ouro

{{edicoes_lidas | 1}}
edições lidas
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações

Top {{top_pct | 100}}%: posição {{pos_mes | 0}} na comunidade Diário do Cão nesse mês

Quero subir meu nível →

 
 
 

Ele não fala. Você já sabe.

Diário do Cão

DIÁRIO DO CÃO

O que o cão não fala, a edição explica

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter