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O Carrapato Preso na Dobra da Orelha
A boca do parasita fica cravada na pele, e quem decide o desfecho é a pinça reta com tração constante, nunca o álcool nem a brasa do cigarro.
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Carrapato preso na dobra da orelha do cão
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Nove da noite, a lanterna do celular apontada para dentro da orelha do vira-lata que voltou do sítio, e um caroço escuro do tamanho de um grão de feijão colado na dobra de pele, logo acima da entrada do canal. O cão sacode a cabeça, coça com a pata traseira e reclama quando a mão chega perto. A casa inteira se debruça, e alguém já foi buscar o algodão com álcool na gaveta do banheiro.
O caroço tem patas. Visto de perto, com a orelha virada contra a luz, o corpo cinzento aparece inchado de sangue e a cabeça some dentro da pele. O que parece verruga na primeira olhada é um animal preso pela boca, alimentando há horas ou há dias, no ponto do corpo do cão que a pata alcança mal e a tosa nunca limpa direito.
A dobra da orelha reúne três vantagens para o parasita: pele fina, temperatura estável e pouquíssimo atrito. Quando o cão passa por capim alto, os carrapatos esperam na ponta da folha com as patas dianteiras abertas, agarram o pelo de passagem e sobem procurando exatamente esse tipo de recanto. Orelha, entre os dedos, virilha e a prega abaixo do rabo respondem pela maioria dos achados numa vistoria caseira honesta.
A pressa da casa é entender como fazer o bicho soltar sozinho. Toda a tradição oral do interior aponta para o mesmo caminho: encostar a brasa do cigarro, molhar de álcool, passar esmalte de unha, pingar querosene, sufocar com vaselina. Cada um desses truques ataca o carrapato de um jeito que o obriga a reagir dentro da pele do cão, e a reação dele é o que transforma um incômodo local em risco de doença transmitida.
A retirada certa tem ferramenta, ângulo e ritmo definidos, e começa por entender o que a boca do parasita está fazendo lá dentro.
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I Pode Dar?
A brasa e o álcool trabalham a favor do parasita
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O carrapato-estrela, Amblyomma sculptum, o mais comum nas áreas de pasto e capim do Sudeste e do Centro-Oeste brasileiro, não se agarra com as patas: ele corta a pele com um par de estruturas serrilhadas e enfia no buraco um tubo de fixação chamado hipostômio (a peça bucal farpada), que funciona como arpão de duas vias. Em volta desse arpão, o parasita deposita uma secreção que endurece e vira uma espécie de cimento biológico. É por isso que a mão puxando o corpo com os dedos escorrega e o bicho continua no lugar.
Junto do cimento, a saliva entra o tempo todo na pele do cão. Ela carrega anestésico, que explica o cão não reclamar da picada, e substâncias que impedem o sangue de coagular e seguram a resposta imune local. Essa mesma saliva é o veículo dos agentes que causam doença. O parasita não injeta o micro-organismo pelo corpo nem pelas patas: ele injeta pela boca, junto com o cuspe.
Aqui mora o estrago dos truques caseiros. Álcool, éter, querosene, esmalte e a brasa do cigarro provocam no carrapato uma reação de estresse imediata. Ele regurgita o conteúdo do intestino de volta na ferida, aumenta o volume de saliva injetada e, quando o corpo é esmagado ou queimado, rompe na própria ferida. O conteúdo intestinal do parasita é justamente onde vivem as bactérias que adoecem o cão. O truque que promete fazer o bicho soltar é o truque que empurra a carga infecciosa para dentro.
Esmalte e vaselina funcionam por asfixia lenta, e a lentidão é o problema. O carrapato respira por orifícios laterais e aguenta horas sem ar, horas que ele passa salivando na ferida enquanto morre. Quando finalmente solta, o tempo de exposição do cão ao que estava dentro dele já dobrou.
O que não entra na orelha do cão
Brasa de cigarro, fósforo aceso e qualquer fonte de calor. Além de estressar o parasita, queimam a pele fina da orelha de um cão que sacode a cabeça.
Álcool, éter, acetona, querosene, gasolina e óleo diesel. Todos irritam o carrapato antes de matá-lo e ainda queimam a pele já inflamada em volta da picada.
Esmalte de unha, vaselina, manteiga e creme dental. Prometem sufocar, entregam mais tempo de saliva na ferida e sujam a região onde a pinça vai trabalhar.
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"A transmissão de Rickettsia rickettsii por carrapatos do gênero Amblyomma normalmente requer várias horas de fixação no hospedeiro, período associado à reativação da bactéria dentro do parasita."
Marcelo B. Labruna, Ecology of Rickettsia in South America, Annals of the New York Academy of Sciences, 2009
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Puxar com os dedos, torcer ou girar o corpo entra na mesma lista de proibições. Dedo não segura perto da pele, a unha esmaga o abdome do carrapato e a torção quebra as peças bucais exatamente onde elas estão ancoradas. Retirada boa é aquela em que o bicho sai inteiro, com a cabeça junto do corpo.
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II Sinal do Corpo
Duas semanas depois da picada o cão amanhece quieto
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O carrapato retirado hoje não encerra a história: o intervalo entre a picada e o primeiro sinal de doença transmitida costuma correr de uma a três semanas, e a família já esqueceu do episódio quando o cão começa a se comportar diferente. O sinal de abertura quase nunca é dramático. O animal come menos, deita cedo, recusa a caminhada que adorava e passa o dia inteiro numa quietude que não combina com ele.
Febre é o segundo sinal e o mais mensurável em casa. A temperatura retal do cão saudável fica entre 38 e 39,2 graus, e qualquer termômetro digital comum de farmácia serve para ler. Focinho quente não mede nada e já mandou muita família para casa tranquila com um cão febril no colo.
Da febre em diante, cada doença desenha um quadro próprio. Na erliquiose, transmitida pelo carrapato-marrom-do-cão, aparecem sangramento de nariz, pontinhos vermelhos na pele da barriga, gengiva pálida e hematomas sem pancada, porque a bactéria derruba as plaquetas. Na babesiose, o parasita destrói glóbulos vermelhos e o cão fica com a gengiva branca, urina cor de coca-cola e uma fraqueza que atrapalha subir escada. Na febre maculosa brasileira, transmitida pelo carrapato-estrela, o cão apresenta febre alta, apatia profunda, olhos avermelhados e, em parte dos casos, sinais neurológicos.
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Cão que voltou do sítio há duas semanas e amanheceu sem vontade de nada merece termômetro, não um dia de observação.
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O que a casa observa e anota
Meça a temperatura retal com termômetro digital lubrificado com vaselina, uma vez de manhã e uma à noite, e anote os dois valores com o horário. Curva de febre escrita no papel vale mais na consulta que a impressão de que o cão estava quentinho.
Levante o beiço e olhe a gengiva sob luz branca. Rosa é o normal. Branca, amarelada ou com pontinhos vermelhos do tamanho de cabeça de alfinete pede consulta imediata, sem esperar a febre confirmar.
Registre a data da vistoria e de onde o carrapato saiu. Sítio, praça, trilha, quintal de parente com pasto ao lado: o lugar orienta a suspeita, porque o carrapato-marrom vive em canil urbano e o carrapato-estrela ocupa área de capim com cavalo ou capivara por perto.
Guarde o parasita retirado num potinho fechado com álcool e uma etiqueta com a data. Se o cão adoecer duas semanas depois, a espécie identificada no laboratório encurta o caminho do diagnóstico.
Vale dizer com todas as letras o que não se sabe pela simples picada: nenhum exame feito no dia da retirada prevê se aquele cão vai adoecer, porque a resposta do organismo demora a aparecer no sangue. A conduta de quem cuida é vigiar por três semanas com termômetro na mão, sem antibiótico preventivo por conta própria.
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