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O Cheiro de Fermento na Orelha do Cão

Cabeça torta pro mesmo lado, coceira e cheiro de pão na orelha apontam otite; o passo é clínica em 24 horas, sem cotonete.

Cocker spaniel dourado com a cabeça inclinada e a tutora levantando a orelha esquerda.

A orelha que pede clínica

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Juliana Prates percebeu numa terça à noite, no sofá, que o Bento assistia à televisão de cabeça torta. O Bento, um cocker spaniel dourado de cinco anos e treze quilos, mantinha a orelha esquerda mais baixa que a direita, como quem escuta um som que vem do chão.

Ela achou graça e tirou uma foto. Na manhã seguinte, a cabeça continuava inclinada pro mesmo lado, e o cão parava a cada poucos minutos pra coçar a orelha esquerda com a pata de trás, com força, até gemer.

No café da manhã, o Bento sacudiu a cabeça com tanta força que as orelhas estalaram no ar. Juliana se abaixou pra fazer carinho e sentiu um cheiro azedo, parecido com massa de pão crescendo, vindo da orelha esquerda.

Ela levantou a orelha comprida e olhou dentro. O canal estava vermelho, úmido e coberto por uma cera marrom escura, quase cor de borra de café. Quando ela encostou o dedo na base da orelha, o Bento puxou a cabeça e rosnou baixo, uma reação que ela nunca tinha visto.

A primeira ideia foi a da gaveta do banheiro: um cotonete e um pouco de água oxigenada pra limpar a sujeira. Juliana chegou a molhar a ponta do algodão. A irmã, que cria dois cães, ligou na hora e pediu pra ela largar o cotonete na pia.

A cabeça inclinada, a coceira e o cheiro de fermento formam o retrato clássico da otite (a inflamação do ouvido), e cocker spaniel aparece entre as raças que mais sofrem com ela. A orelha comprida e peluda tampa o canal, segura a umidade e cria uma estufa quente pra fungo e bactéria.

Juliana marcou consulta pra tarde do mesmo dia. Até lá, ela queria saber três respostas: o que pode entrar no ouvido de um cão, quais sinais separam uma coceira simples de uma urgência e quanto custa empurrar a consulta pra semana seguinte.

A primeira resposta mora na gaveta do banheiro, e começa pelo que fica fora da orelha.

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I  Pode Dar?

O que entra no ouvido do cão

Dentro do ouvido inflamado, quase nada caseiro pode entrar. O cotonete, a água oxigenada, o vinagre e o óleo que circulam nas receitas de internet pioram a otite, e o único produto liberado é o que o veterinário receita depois de examinar o canal.

O ouvido do cão tem formato de L. O canal desce reto pela lateral da cabeça e depois faz uma curva pra dentro até o tímpano (a membrana fina que separa o ouvido externo do ouvido médio). Por fora, o tutor enxerga só o começo do trecho reto.

Esse desenho explica o problema do cotonete. A haste empurra a cera e a secreção pra baixo, na direção da curva, e compacta tudo perto do tímpano. A pele do canal, já inchada, ainda se arranha no algodão e abre porta pra mais bactéria.

POR QUE O CASEIRO FICA NA GAVETA

Água oxigenada borbulha e parece limpar, mas irrita a pele inflamada e deixa o canal molhado, a condição que o fungo prefere. Vinagre e álcool ardem na ferida que o cão já coçou. Óleo e azeite formam uma camada que prende a umidade e alimenta a infecção.

Existe um risco pior, que o tutor não enxerga. Se o tímpano estiver rompido, qualquer líquido que entra no canal atravessa até o ouvido médio. Alguns produtos, inclusive certas gotas vendidas sem receita, agridem o ouvido interno e podem deixar o cão com o equilíbrio afetado.

Ouvido inflamado não leva cotonete nem líquido de casa: leva o cão até a clínica em 24 horas.

O QUE O VETERINÁRIO USA

Na consulta, o veterinário olha o canal com o otoscópio (o aparelho de luz e lente que enxerga até o tímpano). Depois, colhe um pouco da cera com um swab e faz a citologia (o exame da secreção no microscópio), que mostra se o culpado é fungo, bactéria ou os dois.

A cera marrom e o cheiro de fermento costumam apontar a Malassezia, um fungo que vive normalmente na pele do cão e cresce sem controle quando o ouvido fica quente e úmido. Secreção amarela, com cheiro forte e pus, puxa a suspeita pra bactéria.

O exame decide o remédio. A gota pra fungo difere da gota pra bactéria, e muitas trazem os dois princípios junto com um anti-inflamatório (remédio que reduz o inchaço e a dor). Usar a gota errada, sobrada de um tratamento antigo, atrasa a cura e cria bactéria resistente.

No caso do Bento, o tímpano estava inteiro e a citologia mostrou Malassezia em grande quantidade, com poucas bactérias. A veterinária lavou o canal na própria clínica e passou uma gota pra aplicar em casa.

 
 

II  Sinal do Corpo

A orelha que esconde o pior

A cabeça inclinada costuma ser o sinal que o tutor nota primeiro, mas a orelha avisa antes, por fora e por dentro. O cão com otite coça a orelha, esfrega a cabeça no tapete, sacode as orelhas e reage com dor quando alguém toca na base dela.

O canal do ouvido saudável é rosa claro, quase seco, com pouca cera clara e sem cheiro. Basta comparar as duas orelhas na luz do dia: a doente fica vermelha, inchada, quente ao toque e mais úmida que a outra.

A cor da cera ajuda a ler o caso. Marrom escura e gordurosa combina com fungo. Amarela ou esverdeada, com pus, combina com bactéria. Cera preta e seca, parecida com pó de café, pode indicar ácaro de ouvido, mais comum em filhote e em cão que divide a casa com gato.

QUANDO A CONSULTA NÃO ESPERA

Alguns sinais mostram que a inflamação passou do ouvido externo e chegou mais fundo. Os olhos que tremem de um lado pro outro, o cão que anda em círculo, cai pro lado da cabeça inclinada ou perde o equilíbrio pedem atendimento no mesmo dia, mesmo à noite.

O rosto também entrega. A pálpebra caída, o lábio mole e a dificuldade pra piscar do mesmo lado da orelha doente mostram que o nervo da face, que passa perto do ouvido médio, foi atingido.

Cabeça inclinada com olho tremendo ou cão andando em círculo é urgência, e a clínica atende no mesmo dia.

A ORELHA QUE INCHA

Uma otite que coça por dias traz outro risco. De tanto o cão sacudir a cabeça, um vaso da orelha se rompe e a aba enche de sangue, virando um travesseiro mole e quente. O nome técnico é otohematoma (a bolsa de sangue entre a pele e a cartilagem da orelha).

O otohematoma quase sempre pede cirurgia ou drenagem na clínica, e a orelha pode ficar enrugada depois. Ele aparece mais em raças de orelha comprida, como cocker, basset e golden, e quase sempre tem uma otite por trás.

O desfecho do Bento foi simples porque Juliana agiu cedo. Sem olho tremendo e sem orelha inchada, o cão voltou pra casa com a gota, e em quatro dias parou de inclinar a cabeça. No retorno de catorze dias, a citologia saiu limpa.

 
 

III  A Conta do Pote

Os catorze dias que custam menos que um mês

Tratar a otite na primeira semana sai mais barato que tratar a otite que voltou. A conta do Bento mostra a diferença entre a consulta rápida e a orelha que vira problema crônico.

A consulta com otoscopia e citologia sai perto de R$ 220 numa clínica de Balneário Camboriú, valor de exemplo que muda por cidade. A gota pra fungo e o limpador de ouvido somam outros R$ 130, preço de exemplo. O retorno de catorze dias custa perto de R$ 120.

A conta fecha em R$ 470 pra resolver a otite inteira. Uma otite que volta toda estação pede cultura de bactéria, remédio por boca, às vezes anestesia pra lavar o canal, e o total sobe pra milhares de reais por ano.

A CONTA DO POTE

A otite que volta sempre costuma ter uma causa por baixo, e a mais comum é alergia. O cão alérgico a algum ingrediente da ração, ou a pólen e ácaro de poeira, inflama a pele inteira, e o canal do ouvido é pele. A coceira na orelha aparece junto com patas lambidas e barriga vermelha.

Quando a suspeita cai na comida, o veterinário propõe a dieta de eliminação (uma ração com proteína que o cão nunca comeu, ou com a proteína quebrada em pedaços pequenos, por várias semanas). Petisco, resto de mesa e osso mastigável saem do cardápio nesse período, porque um único biscoito estraga o teste.

A ração hipoalergênica custa bem acima da comum, e o tutor só sabe se ela funciona quando a orelha passa semanas sem coçar. Trocar de ração por conta própria, sem plano, embaralha o resultado.

A CONTA DA ROTINA

A prevenção custa minutos. Depois do banho ou da piscina, seque a parte de dentro da aba com uma toalha, sem entrar no canal. Em raça de orelha comprida, a tosa dos pelos em volta da entrada do ouvido deixa o ar circular.

Limpeza de rotina só entra se o veterinário mandar, com o limpador que ele indicar e na frequência que ele definir. Ouvido saudável se limpa sozinho, e limpar demais irrita a pele.

Pra agir quando a cabeça inclinar, siga estes passos:

1. Levante as duas orelhas na luz e compare cor, cheiro e cera.

 

2. Deixe cotonete, água oxigenada, vinagre e óleo na gaveta.

 

3. Marque a clínica em até 24 horas e conte há quanto tempo a coceira começou.

 

4. Se o olho tremer ou o cão andar em círculo, vá no mesmo dia.

 

5. Aplique a gota pelo tempo inteiro da receita, mesmo que a coceira pare antes.

 

6. Volte no retorno pra repetir a citologia antes de parar o remédio.

Hoje o Bento assiste à televisão de cabeça reta, e Juliana guarda na geladeira a foto do canal vermelho que o veterinário mostrou na tela. Ela confere as orelhas dele todo domingo, depois do banho.

“Quando foi a última vez que você levantou a orelha do seu cão pra olhar dentro?”

 
 
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