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O Círculo das 3 da Madrugada

O cão de 11 anos que gira à noite, encara a parede e esquece a porta mostra o cérebro do idoso; a consulta sai na semana, com vídeo.

Cão caramelo idoso parado de frente para a parede da sala, à noite.

O giro da madrugada ao redor da mesa

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Osvaldo Prates acordou às três e dez da manhã com um barulho de unhas no piso da sala. Bento, o vira-lata caramelo de onze anos que dorme ao pé da cama desde filhote, não estava no tapete.

Osvaldo acendeu a luz do corredor e encontrou o cão andando em círculo ao redor da mesa de centro. Sempre para a esquerda, sempre no mesmo ritmo, com o focinho baixo e o olhar parado, como quem procura alguma peça perdida no chão.

Na quinta volta, Bento parou de frente para a parede da estante, a um palmo dela, e ficou ali. Não latiu, não abanou o rabo, não virou quando Osvaldo chamou pelo nome. Só depois de um toque nas costas ele saiu do transe e foi beber água.

Na manhã seguinte, a esposa de Osvaldo, Lúcia, juntou as peças que vinham aparecendo havia meses. Bento esperava para sair na porta da sala, onde fica a dobradiça, e não na porta da cozinha, que é a que abre para o quintal desde sempre.

Ele também deixou de buscar o chinelo quando o carro entrava na garagem e fez xixi duas vezes no tapete do corredor, logo ele, que nunca errou em dez anos. A família atribuiu tudo à idade e seguiu a vida.

A volta noturna ao redor da mesa mudou a leitura. Lúcia pesquisou e achou o termo que os veterinários usam: síndrome da disfunção cognitiva canina (o envelhecimento do cérebro do cão, parente do Alzheimer humano).

Na síndrome, o cérebro do cão idoso acumula placas de uma proteína chamada beta-amiloide e perde neurônios nas áreas da memória. O relógio interno que separa dia e noite se desregula, e o cão troca o sono da madrugada pela vigília.

O quadro não tem cura, mas tem tratamento, e o começo cedo faz diferença na velocidade da piora. Osvaldo marcou consulta para a mesma semana e saiu do consultório com três perguntas respondidas: o que dar à noite, como separar a síndrome de outra doença e quanto custa cuidar.

A primeira resposta começa pela caixa de remédios do banheiro.

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I  Pode Dar?

O calmante da casa fica na caixa

Para o cão que não dorme à noite, nenhum calmante ou indutor de sono humano entra sem receita. Diazepam, zolpidem, antialérgico que dá sono e chá forte de erva, os itens que muitas famílias guardam para as noites ruins, podem confundir ainda mais um cérebro idoso.

O cão com disfunção cognitiva já anda desorientado. Um sedativo humano pode deixá-lo cambaleante, aumentar o risco de queda na escada e, em alguns casos, causar o efeito contrário, com agitação maior. O fígado do cão velho também processa esses remédios mais devagar.

Osvaldo pensou em partir meio comprimido do remédio que ele mesmo toma para dormir. Lúcia ligou antes para a clínica, e a atendente pediu que nada entrasse até a consulta.

O QUE PODE ENTRAR ATÉ A CONSULTA

Rotina entra, e é a principal ferramenta. Passeio mais longo à tardinha, refeição sempre no mesmo horário e uma última saída para o xixi antes de deitar ajudam o cão a gastar energia de dia e chegar cansado à noite.

Uma luz fraca no corredor, como a de tomada usada em quarto de criança, ajuda o cão que enxerga pior à noite a se localizar. Móveis no lugar de sempre também contam: mudar o sofá de posição desorienta o cão idoso.

Calmante de gente não entra no cão idoso; até a consulta, o que entra é rotina fixa, passeio à tarde e luz fraca no corredor.

O QUE O VETERINÁRIO RECEITA

Na clínica, o tratamento começa depois do exame que descarta outras doenças. O remédio mais estudado para o quadro é a selegilina, aprovada pela FDA (a agência que regula remédios nos Estados Unidos) para a disfunção cognitiva canina em 1998.

A selegilina aumenta a ação da dopamina (substância que leva mensagens entre os neurônios) no cérebro do cão. A resposta aparece em semanas, não em dias, e a dose vem calculada pelo peso.

A ração também conta. Em 2005, a equipe do pesquisador Norton Milgram, da Universidade de Toronto, publicou na revista Neurobiology of Aging um estudo com cães idosos em que uma dieta rica em antioxidantes, somada a brinquedos e treino, melhorou o desempenho em testes de memória.

Suplementos com ômega 3 e triglicerídeos de cadeia média (um tipo de gordura que vira energia rápida para o cérebro) aparecem em rações próprias para cão sênior. Melatonina, hormônio do sono, entra em alguns casos, só com dose e marca indicadas pelo veterinário.

No caso do Bento, a veterinária receitou selegilina por oito semanas, trocou a ração por uma linha sênior com antioxidantes e marcou retorno.

 
 

II  Sinal do Corpo

A parede, a porta e os 6 sinais

Encarar a parede, andar em círculo e esquecer a porta formam o retrato clássico do cérebro idoso, e a soma dos sinais diz o tamanho do quadro. Muitos tutores leem cada um deles como manha da idade.

Os veterinários usam uma lista de seis grupos de sinais, conhecida pela sigla em inglês DISHAA, organizada pelo veterinário canadense Gary Landsberg e colegas.

As letras guardam desorientação (perder-se em casa, esperar na porta errada), interação (deixar de buscar o dono ou ficar mais irritado), sono e vigília trocados, xixi e cocô fora do lugar, atividade alterada, como andar em círculo, e ansiedade.

O QUE O TUTOR PODE GRAVAR

O cão costuma se comportar bem no consultório, de dia e com cheiros novos. Por esse ângulo, o vídeo da madrugada vale para a consulta como um exame. Três minutos bastam, gravados com o celular parado e a luz do corredor acesa.

Grave o cão andando, a volta completa e o momento em que ele para diante da parede. Anote a hora em que começou e quantas noites na semana o giro aparece. Junte a lista dos outros sinais: porta errada, xixi fora do lugar, dono não reconhecido na chegada.

Cão idoso que gira de madrugada, encara a parede e erra a porta pede consulta na semana, com o vídeo da noite no celular.

QUANDO O CÃO NÃO PODE ESPERAR

Parado diante da parede não é igual a cabeça empurrada contra a parede. O cão que encosta a testa e força a cabeça contra o muro faz o gesto que os veterinários chamam de pressão de cabeça (sinal de lesão no cérebro ou intoxicação). Esse quadro pede atendimento no mesmo dia.

Também pedem pronto atendimento a convulsão, a cabeça inclinada para um lado com o olho tremendo, o giro sempre para o mesmo lado de forma súbita e a perda de equilíbrio. Esses sinais apontam para tumor, problema no ouvido interno ou derrame, e não para envelhecimento.

Na consulta, o exame de sangue procura doença do rim, do fígado e da tireoide, que também deixam o cão confuso. A veterinária ainda apalpou as costas e o quadril do Bento, porque a dor de artrose rouba o sono e imita o quadro.

O Bento tinha exames normais e cinco dos seis grupos de sinais. O diagnóstico ficou em disfunção cognitiva moderada, sem sinal de doença no cérebro que pedisse tomografia.

 
 

III  A Conta do Pote

A ração sênior e a conta da noite

No cão com disfunção cognitiva, o pote e a rotina pesam tanto quanto o remédio. O cérebro idoso precisa de exercício mental todos os dias, e o pote é o lugar mais fácil de oferecer.

A conta do Bento, numa clínica de Balneário Camboriú, ficou assim, valores de exemplo que mudam por cidade: consulta com geriatra perto de R$ 250, exame de sangue completo perto de R$ 280 e o primeiro mês de selegilina manipulada perto de R$ 120. O total foi de R$ 650.

A ração sênior com antioxidantes custa mais que a ração comum. A diferença no saco de quinze quilos fica em algumas dezenas de reais, conforme a marca, e o saco dura cerca de dois meses para um cão de porte médio como o Bento.

A CONTA DO POTE

O pote comum saiu e entrou um tapete de lamber e um brinquedo que solta ração quando o cão empurra. A refeição que acabava em um minuto passou a durar quinze, com o focinho trabalhando.

Os petiscos viraram treino curto. Lúcia esconde cinco grãos de ração em copos virados e pede que o Bento ache. Ela também retomou os comandos antigos, senta e dá a pata, em sessões de dois minutos à tarde.

O jantar foi antecipado para as dezoito horas. Cão que come tarde precisa sair à noite para o cocô, e a saída noturna acorda o cão confuso para a madrugada inteira.

A CONTA DA NOITE

O Bento ganhou uma caminha dentro de um pequeno cercado no quarto do casal, longe da mesa de centro e da estante. O espaço menor reduz a volta sem rumo, e o cheiro do dono por perto acalma.

Tapete emborrachado cobre o caminho do quarto até a porta da cozinha, que agora tem uma fita de cheiro de lavanda na altura do focinho, para o cão achar a saída certa pelo olfato, o sentido que mais resiste à idade.

Para agir quando o cão idoso começar a girar de madrugada, siga estes passos:

1. Anote a hora, o lado do giro e quantas noites na semana.

 

2. Grave três minutos do cão girando, com o celular parado.

 

3. Deixe calmante e remédio de dormir humano fora do alcance.

 

4. Adiante o jantar e alongue o passeio da tardinha.

 

5. Marque consulta na semana, levando o vídeo e a lista de sinais.

 

6. Vá no mesmo dia se ele empurrar a cabeça na parede ou convulsionar.

Oito semanas depois, o Bento dorme até as seis na maior parte das noites, voltou a esperar na porta da cozinha e girou só duas vezes no último mês. Osvaldo mostra o vídeo novo a cada retorno, gravado no mesmo corredor.

“Há quantas noites o seu cão anda pela casa enquanto a família dorme?”

 
 
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