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Sábado de setembro, onze da manhã, e o sol da primavera já esquenta a calçada da praça. Tobias, um buldogue francês de três anos, deitou na sombra depois de dez minutos correndo atrás da bola. O ofego dele ficou alto e rouco, parecido com um ronco de quem está acordado. A língua saiu larga, pendurada para o lado.
A tutora achou que era cansaço comum. O termômetro da farmácia na esquina marcava 27 graus, um calor que um labrador tolera bem num passeio curto. Para o Tobias, bastou.
Cães suam muito pouco, quase só pelas almofadas das patas. O resfriamento depende do ofego: o ar entra pelo nariz e passa pelos cornetos nasais (lâminas finas de osso forradas de mucosa úmida, que funcionam como radiador), e a água que evapora ali leva o calor embora.
No pug, no buldogue inglês, no buldogue francês e no shih-tzu, a seleção por crânio achatado espremeu essas lâminas num espaço mínimo. São as raças braquicefálicas (de cabeça curta e focinho encurtado). As narinas costumam ser estreitas, e o palato mole (a parte macia do céu da boca) sobra e bate na entrada da garganta. O ar passa com esforço, faz barulho e troca pouco calor a cada respiração.
A primavera piora a conta. O corpo do cão ainda vem do inverno, sem a adaptação que algumas semanas de calor constroem, e a primeira tarde quente pega o animal despreparado. Um estudo do Royal Veterinary College publicado em 2020 na revista Scientific Reports, feito com registros de clínicas britânicas, encontrou no buldogue inglês um risco de insolação cerca de 14 vezes maior que no labrador.
Tobias chegou à clínica molhado da cabeça às patas, deitado no banco de trás com o ar-condicionado no máximo, e a temperatura dele já vinha caindo quando passou pela porta. Voltou para casa ao anoitecer, com soro na veia e a recomendação de passear só cedo até o outono.
A primeira seção mostra o que entra no socorro feito em casa, e o que parece ajudar mas atrapalha.
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I Pode Dar?
Água da torneira, nunca balde de gelo
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Pode molhar o corpo do cão com água fresca da torneira, levar para a sombra e ligar o vento; gelo, toalha molhada parada em cima dele e remédio humano de febre, não. O socorro de casa ganha minutos, e a clínica termina o trabalho.
A primeira decisão é parar tudo. Passeio, brincadeira e subida de escada acabam na hora. Leve o cão para a sombra mais fresca que houver, de preferência com chão frio, como piso de cerâmica ou grama molhada. Se ele não anda, carregue.
COMO MOLHAR
Use água da torneira, na temperatura em que ela sai, ou de uma garrafa que estava fora da geladeira. Molhe primeiro a barriga, a parte interna das coxas, as axilas e o pescoço, onde a pele é fina e os vasos passam perto da superfície. Depois as patas e as orelhas.
Em seguida, faça o ar circular. Um ventilador, o vento do carro com a janela aberta ou até um pedaço de papelão abanando aceleram a evaporação, que é o que de fato tira calor do corpo. Água parada sobre a pele, sem vento, esquenta rápido e perde o efeito.
Se o cão está acordado e consegue engolir, ofereça água fresca em pouca quantidade, alguns goles por vez. Se ele está mole, confuso ou não fecha a boca, não despeje água na garganta: ele pode puxar o líquido para o pulmão.
Molhe sem parar no caminho da clínica. Com um termômetro retal em casa, o alvo é voltar à faixa normal do cão, de 38 a 39 °C, e parar de molhar quando chegar lá, para o corpo não passar do ponto e esfriar demais.
O QUE FICA FORA
Gelo e água gelada parecem a resposta óbvia e atrapalham. O frio intenso fecha os vasos da pele, a vasoconstrição (o estreitamento dos vasos para guardar calor), e o sangue quente fica preso no centro do corpo. O cão ainda pode tremer, e tremor produz calor.
Toalha molhada jogada por cima e deixada ali vira cobertor. Em minutos ela aquece com o corpo e segura o calor junto da pele. Se usar toalha, molhe de novo a cada instante ou use só embaixo do cão, como tapete fresco.
Remédio de febre humano fica fora do socorro. Insolação é calor que entrou de fora, e o paracetamol, comum em qualquer armário, é tóxico para o fígado e o sangue do cão. Só o veterinário decide medicação, e quase sempre na veia.
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II Sinal do Corpo
Ronco acordado, gengiva cor de vinho
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Ofego barulhento que não acalma na sombra, somado a gengiva vermelho-escura, é o sinal de correr para a clínica, molhando o cão no caminho. O som vem primeiro, a cor confirma.
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"Cool first, transport second." (Resfrie primeiro, transporte depois.)
Emily Hall e Anne Carter, Nottingham Trent University, campanha sobre insolação canina, 2022
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O SOM
Todo braquicefálico faz algum barulho ao respirar, e o tutor se acostuma. A mudança está no volume e na duração. O ofego da insolação é alto, rouco, às vezes com um chiado agudo na entrada do ar, e continua forte depois de dois ou três minutos na sombra e em repouso.
A postura acompanha. O cão estica o pescoço para a frente, abre bem a boca, fica em pé ou sentado quando deveria deitar, e a língua sai larga e comprida, com a ponta em forma de colher. Baba grossa e espumosa escorre pelos cantos da boca.
A COR
Levante o lábio de cima e olhe a gengiva. No calor normal ela segue rosa. Na insolação ela escurece para um vermelho forte, cor de vinho ou de tijolo, e a língua fica no mesmo tom. A boca costuma estar seca e pegajosa ao toque.
Esse vermelho aparece porque o corpo abre ao máximo os vasos da pele e da boca, tentando despejar calor para fora. É a fase em que o socorro ainda funciona melhor, porque os órgãos estão quentes, mas trabalhando.
A FASE TARDIA
Sem resfriamento, a temperatura interna passa de 41 °C e as células começam a sofrer. Os sinais mudam: o cão cambaleia, vomita, pode ter diarreia com sangue, fica desorientado e deixa de responder ao chamado. A gengiva troca o vermelho por roxo, cinza ou branco, sinal de que a circulação está falhando.
Essa virada engana. O ofego pode diminuir, e o tutor acha que o cão melhorou. Na verdade ele está cansado demais para respirar com força.
QUANDO É EMERGÊNCIA
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Ofego alto que não acalma em poucos minutos de sombra, gengiva vermelho-escura, cambaleio ou vômito: molhe o cão com água fresca, ligue o vento e saia para o pronto-socorro veterinário agora, avisando a clínica pelo telefone no caminho.
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Mesmo o cão que parece recuperado em casa precisa de consulta no mesmo dia. O calor forte pode lesar rins, intestino e coagulação, e parte do estrago só aparece em exame de sangue horas depois.
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